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Clelia Merloni



Perfil Biográfico de Madre Clélia Merloni

Madre Clélia, a fundadora das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, é um “sinal” luminoso de santidade, uma expressão viva do amor, uma fornalha de caridade. Ela emprestou seu corpo ao Evangelho, e o Evangelho se encarnou nela e começou a viver, a proclamar, a vibrar perfeitamente em sua pessoa.

Clélia nasce, entre festa e ternura, aos 10 de março e 1861, na casa de Joaquim e Teresa Brandinelli, na cidade italiana de Forli. A pequena cresce como flor dos vales, entre as carícias e o amor de seus pais; dia a dia vai formando a sua personalidade, qual rede tecida de sonhos: estudo, sucesso profissional, segurança econômica, roda de amigos, e depois festas, damas, cavalheiros, fontes, jardins...
Será feliz? Aparentemente sim, porém, em seu íntimo existe um vazio a ser preenchido, um ângulo a ser iluminado, um castelo de sonhos que deve ser desfeito e queimado com um forte amor, o do Coração Divino.

Seu ideal

Numa noite de insônia, na prostração de uma doença, ao mesmo tempo misteriosa e preocupante, vê Jesus Crucificado, em tamanho natural, inclinar-se amorosamente para ela, mostrando-lhe o Coração e pedindo auxílio. Pede-lhe amor. E subitamente, como por encanto, brota do coração de Clélia a resposta: “Sim, vou contigo, quero viver só para Ti”.

A partir deste momento os caminhos dos dois corações fundem-se num só, e o amor começa a passar abundantemente de um Coração para o outro. Entre eles tudo é comum: alegrias e sofrimentos, ânsias e temores, pensamentos e afetos, ações e motivações, tudo, tudo...

A jovem Clélia procura intensamente esta divina intimidade, correspondendo ao Amor com amor, vivendo e respirando amor, como a hera, que “deixada a si só, arrasta-se por terra, mas, unida a uma grande árvore, ergue-se aos mais altos cumes: imagem fiel da alma que caminha unida a Deus”.

Em sua experiência mística tende a interiorizar sempre mais a realidade do amor ao Sagrado Coração e confia que “o Coração de Jesus nos aproxima a cada instante, dentro de si,” como num itinerário de amor.

Clélia é uma mulher forte, capaz de vibrar e deixar-se envolver plenamente pelos acontecimentos. É uma mulher que, com a força de seu espírito e a perspicácia de sua sensibilidade, sabe arriscar o tudo de si pelo tudo de Deus e, guiada pelo Espírito Santo, escolhe para si e para suas Irmãs uma forma de vida escondida no Sagrado Coração de Jesus.

Sua vida é sustentada por um grande ideal, o do amor, e por muitos dons da graça. Mas é marcada também por indizíveis sofrimentos: tribulações no espírito e no corpo, sofrimentos físicos e espirituais, silêncio de Deus e das filhas, escuridão do espírito e dos sentidos, incompreensões, cruzes, tentações e tantas outras ocasiões que bem sabe inventar aquele Coração ao qual se doou inteiramente e para sempre.

Seu Instituto

Para as “Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus”, filhas de Madre Clélia, a vida de sacrifício e de oração, bem como a atividade apostólica têm seu centro no Coração de Cristo. O caminho que conduz a este coração é feito de uma ascese exigente: tem suas normas de vida, suas formas motivadoras, sua escala de humildade, o serviço total aos irmãos, um código penitencial iluminado pelo amor e uma intensa vida de união ao Sagrado Coração. As Apóstolas, hoje, desempenham seus trabalhos apostólicos em 14 países. Os membros do Instituto são aproximadamente 2000.

Personalidade de Madre Clélia Merloni

A tentativa de traçar, mesmo que em grandes linhas, o perfil humano e espiritual de quem quer que seja, é sempre uma tarefa difícil e arriscada, porque, na realidade, cada pessoa é um mistério para si mesma e muito mais para os outros.

É possível, porém, colocar em evidência alguns aspectos da grandeza de alma e os traços dominantes da personalidade de Clélia. Pode parecer lugar comum dizer que a Madre foi uma figura poliédrica, porém, esta é a verdade.

Bem poucos temperamentos apresentam, como o seu, tantos e tão variados aspectos e quase... opostos. Isto, no entanto, só aparentemente, porque nela encontramos a harmonia dos contrastes, isto é, a capacidade de unir e de integrar elementos que, com freqüência, existem em separado. Sim, encontramos nela fortaleza e doçura, nobre altivez e profunda humildade, sinceridade e ternura, exigência de verdades claras e transparentes e paciente disponibilidade de buscar segurança e decisão, ao propor, de forma nua e crua, as exigências evangélicas e, ao mesmo tempo, sensibilidade e atenção em exigir de cada apóstola segundo a sua capacidade.

O Sagrado Coração tomara conta de sua mente e de seu coração desde o primeiro e decisivo encontro na casa de Merloni e continuou, por toda a vida, a impulsioná-la, aqui e ali, num aparente emaranhado de linhas e direções, com a força irresistível de seu Amor divino.

A visão clara daquilo que ela era antes de seu encontro com o Coração Divino e daquilo que, por sua causa, se tornou depois, explicam o sentimento de profunda humildade e a força de sua autoridade, e fazem dela uma pessoa altamente mística e, ao mesmo tempo, mulher de ação, criatura terna, afetuosa e susceptível a ímpetos enérgicos e ressentidos. Entre os dois extremos de doçura e de força, estende-se a gama da personalidade da Madre.
Na base de sua personalidade encontrava-se um físico excepcional: robusto, rijo, tenaz, resistente ao cansaço físico e espiritual. Sem esta robustez física e o sólido equilíbrio psíquico não teria sido possível resistir às intermináveis e estafantes provas, às dificuldades de todo gênero; unidas às preocupações materiais e espirituais pelas comunidades nascentes, aos tormentos e obstáculos surgidos a cada passo no seu caminho, vindos de perto e de longe, de desconhecidos e de pessoas conhecidas e até do mesmo Deus, que se esmerava em purificar e tornar transparente aquele físico e aquele espírito, através de um longa e sofrida Via Sacra. Se se considera também, que a maior parte de sua preciosa e abundante correspondência era feita em pequenos intervalos, em retalhos de tempo, devemos confirmar nela uma resistência física e espiritual que chega a ser prodigiosa.

Traços Pedagógicos da Personalidade de Madre Clélia Merloni

O primeiro traço, considerado essencial, é que ela ensinava com os fatos. Madre Clélia não apresentava uma doutrina, não se aventurava em princípios teóricos, não falava continuamente de virtude, mas limitava-se a encarnar o ideal da pessoa verdadeiramente consagrada ao Sagrado Coração, convicta de que os fatos falam por si mesmos. Portanto, só exigia das outras o que experimentava, jamais o que não estava em condição de praticar primeiro. Conseqüentemente, a palavra e o escrito eram sempre precedidos pela prática.

Sua vida era o mais convincente dos discursos. Sua interioridade, seu espírito de sacrifício, o recolhimento, a pobreza, a extraordinária capacidade de doação, a generosidade, o tato, a delicadeza, constituíam o texto inconfundível das suas lições. Ela não era uma Mestra na cátedra, mas um modelo nos corredores do convento. Daí seu vocabulário: “dar bom exemplo, tanto nas coisas pequenas como nas grandes”.

O argumento vital da Madre era solidamente radicado e fundamentado no amor – O amor era o ponto de referência, o meio, o fim e a explicação de toda a sua atividade de Fundadora e de Formadora – ela podia afirmar com São João: “...acreditei no amor”, isto é, direcionei toda a minha vida para o amor, confiei e me abandonei cegamente ao amor.

Madre Clélia aceita permanecer por muitos anos no silêncio, no aquecimento, no escuro, para oferecer a suas filhas a luz resplendente e calorosa do Coração de Jesus. Aceita viver um longo tempo na dolorosa situação de separada, de isolada, a fim de conseguir comunhão fraterna e calma interior às Irmãs do seu Instituto; aceita generosamente ser “ninguém” para que o Instituto seja reconhecido e tenha o direito à vida na Igreja.

Em nome do amor, ela tem infinito respeito por todos. Não tem a força de impor nada, mas de propor, de convencer. Serve-se da fina arte da persuasão. Na verdade, não força, não usa violência, mas simples e suavemente solicita, convida, estimula. Encontramos uma vez mais na Madre o princípio pedagógico: quem educa não deve substituir-se ao aluno, mas empenhar-se em solicitá-lo a partir “de dentro”. Com o fascínio próprio da verdade, estimular a adesão, respeitando plenamente a liberdade, dando tempo ao tempo.

Tornar-se “pequenino”

“Recomenda-te ao Espírito Santo. Pede-lhe que encha o teu coração com sua divina Graça. Jesus deseja que te humilhes, que Ele te concede suas graças. Lembra-te de que os pequeninos são os mais amados por Jesus”. É Madre Clélia quem fala, e se refere à declaração que Jesus faz, de acordo com o texto do Evangelista Mateus: “Se não vos tornardes como os pequeninos, não entrareis no Reino dos Céus”.

Só poderemos apreender toda a intensidade espiritual da expressão de nossa Fundadora, “tornar-se pequeno”, focalizando o aspecto histórico-teológico da afirmação de Jesus.

No mundo semítico, os pequenos, as crianças, eram os últimos na escala social, quanto a direitos e consideração. Simbolizavam a debilidade, a insignificância. Por isto, os rabinos consideravam perda de tempo ensinar a “lei” a uma criança. O Rabi Johanan afirmava que “no dia em que foi destruído o templo, a profecia foi tirada dos profetas e dada aos estultos e às crianças”.

Jesus, ao contrário, propõe, à atenção de todos, justamente os pequeninos, não como modelo de qualidades morais, mas pela sua “humilde” e desprezada posição na escala social e pelas suas condições naturais. Por natureza, os pequeninos dependem dos pais e de todos os que são maiores que eles. Não têm convicções pessoais, não se preocupam de si, nem com o hoje ou amanhã.

Em tudo, dependem dos pais, abandonado-se plenamente em suas mãos. As crianças não têm ambições, não brigam, não pensam mal dos outros. São simples, dóceis, maleáveis, fáceis de serem conduzidas.

O Mestre Jesus, neste texto, não se dirige somente ao Colégio Apostólico, mas à Igreja inteira, e exorta a todos a “se tornarem pequenos” diante de Deus e dos irmãos, a reconhecerem a própria indigência e incapacidade, derrubando atitudes de orgulho e de auto-exaltação. Só quem é pequeno sabe viver como os “pequenos”. E a Igreja Primitiva e a Igreja de todas as épocas, assim como as Comunidades religiosas, não devem ser constituídas por pessoas ricas, nobres, dotadas e poderosas, mas por gente humilde, fraca, desarmada, pobre, justamente como os pequenos, as crianças, que se apresentam a todos com os seus dons naturais.

Compreende-se logo, que quando se refere à “infância evangélica” trata-se de valores muito difíceis e complexos. Não se trata de valores naturais, que se manifestam num temperamento mais ou menos humilde, mas de árduas conquistas, através de longos e repetidos exercícios. Só naquele que se tornou pequeno, superando a idade adulta, é que se encontram a fragilidade, a pequenez, a humildade.

Justamente por isso, Madre Clélia, repetindo fielmente a fórmula evangélica, não exorta a permanecer, mas a tornar-se pequeno, pois ninguém se torna pequeno, mas pequeno se nasce, para crescer e tornar-se adulto, tornando-se novamente pequeno, buscando uma infância que é própria da maturidade, que não é natural, mas conquistada. É uma infância que exige trabalho diário, difícil empenho de análise e de crítica do próprio comportamento, para conquistar o estado de infância.

Ubaldo Terrinoni
Fonte: Caderno de Espiritualidade nº 1

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Última atualização em 12/11/2007.
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