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Nos braços da Misericórdia

    É tempo de quaresma, de conversão, oração, amor fraterno. Fixemos nosso corações na misericórdia divina. Deus nunca renuncia à sua misericórdia. Desde os tempos do profeta Oséias diz Deus: “quero a misericórdia e não o sacrifício” (cf Os 6,6). Misericórdia é a essência de Deus, é sua lógica, seu sistema, sua política. Não fosse a certeza da misericórdia, a vergonha, o remorso, nos levariam ao desespero e até à loucura. Quem descobre a misericórdia não continuará justificando seus pecados, mas, terá forças para saltar e soltar-se dos laços do mal.

    A misericórdia divina não deve ser confundida com a permissividade o que seria tentar a Deus. Não podemos pecar na certeza de que a misericórdia tudo perdoa. Eis uma grosseira ignorância e uma maldosa manipulação de Deus. Pelo contrário, graças à fé na misericórdia nós batemos no peito dizendo perdão Senhor, vem em meu auxilio, cura e converte nosso coração, não queremos mais ser aliados do mal nem presos nas cordas do abismo e do mal. “Imploramos a misericórdia de Deus, não a fim de que ele nos deixe em paz em nossos vícios, mas para que nos livre deles” (Pascoal).

    Por outro lado, a misericórdia nos torna misericordiosos, compassivos, compreensivos para com os outros. É a melhor resposta que damos a quem nos ofendeu. Ela quebra a espiral da violência, não permite que sejamos envenenados pela vingança, ódio, rancor que são destrutivos. A misericórdia nos faz abrir o coração e os braços a quem nos humilhou, injuriou, prejudicou. Pela misericórdia saberemos estar do lado dos órfãos, das viúvas, dos pobres, dos estrangeiros.

    Ainda mas, a fé na misericórdia divina reaviva aquele artigo do credo onde rezamos: “creio na remissão dos pecados”. A misericórdia nos enche de esperança em sermos novos e melhores, nos ajuda ordenar nossa vida, nos torna sensível ao sofrimento alheio, nos dá sabedoria para discernir o bem e o mal. A mais dura das guerras é aquela contra o pecado, pois, as tentações nos iludem e arrastam apresentando-nos vantagens, prazeres, sucessos, luzes que na verdade são iscas para nos destruir. As tentações vêm sempre sob aparência de bem, de luz, de glória. “Não nos deixeis cair em tentação” rezamos no Pai Nosso.

    Graças à misericórdia bloqueamos a violência, colaboramos com a paz, convivemos com pessoas difíceis e respondemos ao mal com o bem. Amar os inimigos é a mais pura expressão da misericórdia e o caminho decisivo para a fraternidade e a paz. É próprio da misericórdia abrir os braços à miséria pessoal e alheia. Estes braços se abrem para nós de modo especial no sacramento da penitencia, onde a ovelha ferida é acolhida pelo Bom Pastor, cujo coração é rico em misericórdia.

    Enfim, a misericórdia é uma bem-aventurança, isto é, é o caminho da alegria, da convivência familiar e social, da felicidade e do bem estar interior. A misericórdia nos permite adormecer profundamente, viver sadiamente, conviver alegremente, morrer docemente. Fixando os nossos olhos nos santos evangelhos descobrimos que a vida de Jesus é uma manifestação da misericórdia de Deus com os pecados, os pobres, os excluídos. Olhemos também para Deus, suspenso numa cruz, seu corpo perfurado pelas cinco chagas, seu coração aberto, tudo isso é o preço da misericórdia que nos resgatou.

    Os médicos, os psicólogos, os advogados e pastores sabem que a misericórdia é remédio, é cura, é solução dos piores problemas da humanidade. Os sacerdotes, nos confessionários, são testemunhas do poder da misericórdia e dos milagres da conversão e o início de uma vida nova. Nesta quaresma do Ano da Fé, entreguemo-nos nos braços da misericórdia, experimentemos a ternura e o calor do amor de Deus. Procuremos retribuir amor, abrindo nossos braços aos irmãos.

    Dom Orlando Brandes
    Arcebispo de Londrina
    Folha de Londrina, 09 de março de 2013
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Última atualização em 18/08/2014.
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